Duas ilhas mostram como o Aedes aegypti regressa à Europa, porque importa a vigilância nos portos e aeroportos, e o que as provas dizem e não dizem.
Porque este mosquito volta a importar na Europa
O Aedes aegypti é um pequeno mosquito preto e branco que pica durante o dia. É o principal vetor urbano dos vírus da febre amarela, dengue, chikungunya e Zika, e reproduz-se em pequenos recipientes com água perto das pessoas. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças refere que outrora viveu em todos os países mediterrânicos, no Cáucaso, em Portugal continental e nos arquipélagos atlânticos. Depois desapareceu da Europa na primeira metade do século XX. Os últimos registos foram em Espanha até 1953 e em Portugal até 1956. O Centro descreve a razão deste desaparecimento como pouco compreendida. Desde então, a espécie reapareceu em partes do sul da Rússia e da Geórgia, e foi introduzida nos Países Baixos, nas Canárias e em Chipre.
O que mostra o mapa europeu atual
O Centro publica um mapa de distribuição ao nível administrativo regional. A sua atualização de 3 de junho de 2026 reflete a situação conhecida em abril de 2026. Na União Europeia e no Espaço Económico Europeu, o Aedes aegypti está estabelecido em Chipre e nas regiões ultraperiféricas da Guiana Francesa, Guadalupe, Martinica, Mayotte e Reunião, todas parte de França, e na Madeira, parte de Portugal. Desde a atualização anterior de junho de 2025, foi notificada uma introdução no Luxemburgo. O mapa é produzido conjuntamente pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças e pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos. É disponibilizado ao público como ficheiro descarregável em inglês. O Luxemburgo notificou uma introdução desde junho de 2025, mostrando que os eventos de importação podem ocorrer longe da atual área de estabelecimento.
O registo de Chipre, de notas antigas a 2021
Chipre tem um registo longo e interrompido. Vasquez e colegas, num artigo na revista Parasite em 2023, referem que o Aedes aegypti foi assinalado em Chipre por Aziz em 1934 e registado pela última vez por Foote e Cook em 1959. A espécie voltou a ser detetada perto do aeroporto e do porto de Larnaca no final de novembro de 2021. Seguiu-se uma vigilância reforçada. Quatro armadilhas BG e oito ovitrampas funcionaram em junho e julho de 2022 e confirmaram que o mosquito sobreviveu ao inverno. As armadilhas capturaram uma fêmea a 20 de julho de 2022 e um macho a 27 de julho de 2022. Houve mais capturas a 4 de setembro de 2022 em Meneou e Kiti, perto da mesma zona costeira. O mesmo artigo refere que o Aedes albopictus, outro mosquito invasor, foi capturado em Limassol e Mesa Geitonia a 3 de outubro de 2022.
Como Chipre respondeu após a deteção
A resposta em Chipre foi estruturada. A partir de setembro de 2022, armadilhas iscadas com gelo seco e um atrativo cobriram os municípios de Larnaca e Limassol e zonas mais amplas. A partir de outubro de 2022, as equipas inspecionaram células de 500 metros por 500 metros em torno de cada local positivo, alargando-se até cinco quilómetros de distância. Um plano de ação de emergência elaborado em junho de 2022 foi adotado pelo Ministério da Saúde em setembro de 2022. Um plano de contingência proposto em dezembro de 2022 foi adotado em abril de 2023. As medidas incluem trabalho porta a porta, remoção de locais de reprodução, tratamento larvar, pulverização adulticida no exterior, uma campanha de informação pública e uma componente de técnica do inseto estéril. As armadilhas também capturaram Aedes albopictus em Limassol e Mesa Geitonia a 3 de outubro de 2022.
Madeira, dengue e o achado de 2025
O Aedes aegypti foi detetado pela primeira vez na Madeira em 2005. Zé-Zé e colegas, num artigo publicado em Parasites and Vectors em 2026, descrevem um surto de dengue na ilha que decorreu de 23 de setembro de 2012 a 3 de março de 2013, com 1080 casos confirmados. O Centro refere que o mesmo surto de 2012 já tinha produzido mais de 2200 casos no início de janeiro de 2013, além de 78 entre viajantes europeus que regressavam da ilha. As densidades caíram depois, provavelmente devido ao controlo de vetores baseado na comunidade, e durante anos só foram encontrados casos importados. Depois, a 8 de janeiro de 2025, duas mulheres aparentadas, de 17 e 52 anos, do mesmo agregado familiar do Funchal, recorreram a uma clínica privada com sintomas compatíveis com dengue. Nenhuma tinha viajado para fora da Madeira. Zé-Zé e colegas referem que o surto da Madeira de 2012 produziu 1080 casos confirmados antes de terminar a 3 de março de 2013.
O que a investigação na Madeira revelou
Os investigadores colocaram 17 armadilhas entre 250 e 500 metros da residência, a par de uma rede rotineira de 32 armadilhas e 177 ovitrampas. As recolhas decorreram de 10 de janeiro a 31 de março de 2025. No total, 393 Aedes aegypti foram rastreados em 80 pools. Uma pool de nove adultos, recolhida perto da residência entre 13 e 24 de janeiro, testou positivo para o vírus da dengue serotipo 2, linhagem 2II_F.1.1.3. O mesmo vírus foi confirmado retrospetivamente num caso clínico. Não foram encontradas mais pools positivas, o que sugere transmissão limitada ou inexistente. O achado ocorreu durante uma baixa abundância de mosquitos e uma baixa adequação climática, apontando para uma possível introdução fora de época em populações que persistem todo o ano. Os autores descrevem a linhagem como vírus da dengue serotipo 2, linhagem 2II_F.1.1.3.
O que isto significa para a saúde pública
Os autores do estudo da Madeira afirmam que a transmissão local ali pode ocorrer durante todo o ano. Os autores citam cenários climáticos que projetam um aumento de até 3,7 graus Celsius. O Centro observa que o Aedes aegypti é limitado pela intolerância aos invernos temperados e pela elevada mortalidade dos ovos com a geada, mas não vê razão para que não volte a estabelecer-se amplamente em toda a região do Mediterrâneo. A dispersão por ferry a partir da Madeira continua a ser considerada o maior risco de introdução na Europa. Os autores cipriotas apelam à cooperação entre países para melhorar a deteção nos pontos de entrada e advertem que vetores não controlados em ilhas podem manter um reservatório permanente do vírus. A proteção prática assenta na remoção de água estagnada, no uso correto de redes mosquiteiras e repelentes e na comunicação de picadas de mosquito aos serviços de saúde locais.
Sources
- Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças: Aedes aegypti - Ficha informativa para especialistas. Indica que a dispersão por via marítima (ferries) a partir da Madeira continua a ser considerada o maior risco de introdução do Aedes aegypti na Europa.
- Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças: Aedes aegypti - distribuição atual conhecida: abril de 2026
- Parasite, via PubMed Central: Duas invasões ao mesmo tempo: atualização sobre a introdução das espécies invasoras Aedes aegypti e Aedes albopictus em Chipre - um apelo à ação na Europa
- Parasites and Vectors, via PubMed Central: Deteção do serotipo 2 do vírus da dengue em populações locais de Aedes aegypti, ilha da Madeira, Portugal, 2025
